coisas que vieram à cabeca enquanto eu não dormia

a hora do relógio ser vermelha é um desespero desnecessário. não custaria nada ser azul.
olhos cor de tacos desgastados. cor de mesa velha de madeira ao ar livre.
quase nada tem a cor da pele
poeira
cabeça de alfinete vermelha
pedrinhas brilhantes em rua de pedras
as dobras da parede
fumaça acumulada no teto ou nos olhos
uma gaveta de pequenas realidades incompletas
algodão
cicatrizes e coisas que não cicatrizam
uma vela que se assopra mas que nunca se apaga
um fio de cabelo na fronha de um travesseiro que não pertence mais a ninguém
falta de sono
desejos
gostar de desenhar palavras bem devagar, como rezar
nao saber rezar mas saber implorar
elefantes, umbigo, espinhos, vento
redemoinhos
gostar tanto de alguém a ponto de abraçar bem forte pra ver se as almas se confundem
beijos na boca
tentar se afastar e não conseguir. tentar fugir.
ser grega
entender ut pictura poiesis de madrugada
ajoelhar e rezar pro urso dos canos
fazer carinho
sentir prazer
coisas secretas

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não dormia há horas. ao olhá-la, jamais se saberia que o seu nome lhe causava desvarios.

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uma entrevista que eu vi e editei (tinha essa mania quando era mais nova)

um corpo que eu respeito. cuidado. eu sou uma mulher com toda certeza. eu amo. todos. um cuidado dobrado, o que é uma coisa fantástica. te confesso que fiquei infeliz. não. lindos. ele tem um temperamento, é um príncipe mas vai aonde ele quer. sofia, eu me lembro tanto de você… ele não me deixa tomar conta da vida dele. cumplicidade, eu acho que sim. complexa, quase um furacão, e ele faz isso com tanta delicadeza. não tenho essa coisa da estrela. ele não explode nunca?
será que um dia ficaremos sem assunto? espaços…
isso é que é complicado. um certo espaço que é só seu. eu tenho duas mãos. não me faça perguntas difíceis. voce é muito clara, a gente pode tentar, com o tempo. porque não será daquela maneira, o imponderável.
falar de projetos.
o ponto onde as palavras desaparecem.

ela veio de ônibus com sonhos. meu tempo é precioso. o resto é meu. foi um erro… esquece.

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uma cidade inteira pesando no peito
dois altares sem deus, um em cada olho
e coisas funcionando dentro do corpo como tumores. como feridas abertas e sem volta.

há dias em que penso em chorar mas o motivo mais verdadeiro, aquele que valeria a pena cada lágrima, está sempre a poucos centímetros das minhas mãos. e eu fico suspensa e iminente, e a manhã, o sol nascendo, o céu todo é um desconvite. passos largos em direção àquilo que seria o centro do corpo. toda madrugada é uma morte lenta e graciosa. reerguer-se é denso. desistir é inalcancável.

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eu às vezes sei relances do que seria estar com o corpo docemente atado a um objeto ou uma idéia. quando sei, raramente é a outro corpo. as piores vezes são as que são lençóis ou pisos quentes porque dão uma impressão de definitivo. um outro corpo não me prenderia e, se o fizesse, não seria doce.
mas em algum ponto do percurso de uma descoberta existe uma falha. justamente no ponto em que tudo vem para se fixar de uma vez por todas talvez. bem então, um vão, uma fresta, e tudo o que eu sinto volta a ser somente sentido e o que eu penso, pensado. quando as coisas têm a exata função que deveriam ter, existir se torna tão desnecessário… tão placidamente desnecessário!

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o fato é que, provavelmente, eu me comprazo na agonia do espaço entre uma e outra coisa acontecível, senão não permaneceria nele tão ardorosamente.
o fato é que eu escorrego e entalo em vãos entre coisas e coisas, e fico lá, no vão, onde provavelmente eu aprendi a ter o peito apertado e a respiração falha e insuficiente. onde aprendi a inspirar ansiosamente, como se fosse minha última mísera quantia de ar. onde aprendi a ouvir coisas acontecendo e não participar. onde aprendi a ter o corpo formigando. aprendi que o silêncio mais profundo é tão denso que te esmaga mesmo, sem nem te ouvir gritar.
insegura.
insegura demais.
tanto que poucas vezes estou de pé. mas algumas coisas são só tristes…

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amar uma pessoa um amor desses que não unem e nem desunem. um continua existindo, o outro também, e eles se amam. não vão voltar, não vão ser amigos, não vão se tornar irmãos e se amam ainda assim. um desfecho pouco possível mas bonito.

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tentando não se entregar.

por dentro parece uma tarde gelada. tudo ficando cada vez mais branco e a luz difusa que se reflete infinitamente, fazendo-a contrair, de tempos em tempos, suas pupilas tão negras de mulher que deixou de chorar quando se perdeu de vez.
depois de tudo, uma catedral misteriosamente se ergueu no centro do peito. também branca e afiada, era a nova senhora daquele corpo esvanecido, frio e desistente. uma catedral flutuante, imponente mas frágil, sustentando a existência puramente humana da menina e ostentando em seus jardins lindas árvores de veias quase verdes – que seriam verdes mesmo se o branco não fosse sufocante. dentro do peito pequeno do pequeno corpo, ainda dentro da minúscula catedral, sobre a mesa aflita do altar, uma taça de sangue seco. era tudo que ela tinha a oferecer.

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o coração apertado e coisas que não estão em mapa algum. não, não teria sido possível. a falta de ventaniazinhas! crueza; a crueza das vontades. intolerância e beijos fora de hora e poucas palavras e olhos fora de órbita e não conseguir ser aquilo que na verdade eu sou mesmo sem esforço nenhum. gostar de estar deitada no escuro ao lado de um homem que dorme sozinho e que, então, me deixa sozinha e ele sonhando envolto em uma fumaça que esteve em meu peito (talvez tenha sido isso…). tocá-lo traria a realidade grossa e seria a minha insônia de todas as escuridões. o homem, lindo, carregando desenhos no corpo todo para não morrer vazio. eu contraindo doenças minhas mesmo, tendo que me isolar de mim para aprender a me salvar. seria grande, lenta e viscosa a salvação. e eu seria cinza e morna. seria a primeira das coisas cinzas e mornas. mas seria serena.

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mesa posta.
uma rosa antiga, secando, de ponta-cabeça.
coisas com o cheiro lento de domingo. lento e adocicado. um silêncio grosso, pesado, terrível. que emudecia qualquer possibilidade ínfima de ruídos.
o homem que se levantara da cama não era meu. nem eram minhas as mãos que o acariciaram, nem os pedidos de perdão internos. nada.
nada dentro de mim. eu, sem alma, não estaria pronta para amá-lo.

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